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Sobre a construção da CAIXA DE MEMÓRIAS

Sobre a construção da CAIXA DE MEMÓRIAS

PROALU - Programa de Acolhimento ao Luto

Por Samantha Mucci

Construir uma caixa de memórias com um pequeno enlutado traz em si um símbolo potente de transformação e transcendência! Parece é um gesto simples, mas ele vem carregado de uma potência profundamente transformadora! É um convite delicado para tocar o que dói sem rasgar, para lembrar sem ferir, para amar mesmo quando a ausência parece grande demais para caber no peito pequeno de quem a sente.

A caixa não nasce para guardar objetos, para abrigar presenças… a presença da ausência que eu tanto falo…

Cada fotografia, cada desenho, cada bilhete, cada objeto escolhido pela criança é uma ponte silenciosa entre o que foi vivido e o que continua vivendo dentro dela. Ali, a há a concretude e o simbólico de que a morte não apaga a sua história… ali, ele pode reorganizar seus sentimentos diante da perda e se conectar com a pessoa amada que morreu. O que se perde na materialidade do corpo se transforma na permanência do vínculo.

Ao construir a caixa com fotos e desenhos, colocar algo dentro dela, a criança dá contorno a sua perda e aprende no não dito, que amar não termina com a morte! Aprende que a ausência pode ser elaborada, nomeada, cuidada. Que a dor não precisa ser escondida e nem evitada, mas pode ser acolhida e lembrada. A caixa se torna um território seguro onde o choro é permitido, onde a saudade encontra lugar, onde o silêncio também fala.

Nesse processo, constrói-se a presença da ausência, ressignifica sua perda, reconstrói seu vínculo contínuo.

A criança passa a compreender que o que não está mais fisicamente continua existindo na memória, nas histórias contadas, nos gestos repetidos, nas músicas lembradas, nos cheiros imaginados.

Sai da impotência do não vivido para a potência do que foi deixado de registro em sua vida e seu jeito de ser. A criança percebe que pode “conversar” com quem morreu, não porque a morte foi negada, mas porque o vínculo encontrou uma nova forma de existir.

Os vínculos contínuos se tecem ali, fio a fio, memória a memória. Não como prisão ao passado, mas como raiz. A caixa ensina que lembrar não impede de seguir, pelo contrário: sustenta a continuidade do seu viver. Ela permite que a criança leve consigo aquilo que foi vivido e compartilhado, os risos, os cuidados, as brincadeiras, o amor, o significado, sem carregar o peso da culpa por continuar viva, crescendo, mudando.

A caixa de memórias é, no fundo, um ato de amor traduzido em cuidado. Ela diz à criança: “o que você viveu foi real, o que você sente é legítimo, e o amor que existiu continua fazendo parte de quem você é”. É um espaço onde a dor encontra significado e a saudade encontra morada.

Porque quando ajudamos uma criança a guardar suas memórias, não estamos ensinando a lembrar do que morreu, estamos ensinando a honrar o que permanece.