Dor que dói ou a Dor que corrói? Escolha!
PROALU - Programa de Acolhimento ao Luto
Por Iraci Ferreira de Araujo Jorge
Quanto mais intenso é o amor, maior é a dor da perda.
A dor é única, pessoal, íntima… e será infinita, a depender de cada um.
Pode-se “viver” nela ou falar sobre ela, mas não se deve “morar” nela, porque isso tem o peso de “morrer” nela e com ela.
Como em uma ferida, a dor cicatriza,
mas a marca resiste deixando a pele mais fina e sensível.
De repente, BOOOOOMMMM!
A dor chega, silenciosa, insidiosa, estrondosa, cada uma trazendo para cada um a sua própria forma de luto.
Não existe, em termos, uma lista fechada de dores, mas no dia a dia, há sempre um exemplo, uma tragédia, uma história, um desespero e … se tudo der certo (seja lá o que isso signifique), há também esperanças e uma integração serena da perda na vida do enlutado.
Vou tentar, com a certeza de não cobrir a plenitude das dores dos lutos, citar alguns lutos simbólicos, apenas como ilustração visto que meu foco é a dor do luto pela morte da pessoa amada.
• A Dor da traição, aqui tratada sob dois vértices:
- traição de amor: a dor que dói no coração, nos sonhos, nos planos, na esperança.
- traição de amigos: a dor que dói na alma, na rejeição do afeto doado, no orgulho da confiança destruída, que murcha, jaz no pântano onde antes era chão firme de pedra.
• Dor das perdas financeiras com suas muitas facetas: de negócios mal feitos a golpes de sócios, dentre outros.
• Dor por injustiças sofridas: sofrimento pelo orgulho ferido, humilhações extremas, desprezos e abandonos inexplicáveis.
• Dor pela destruição da família: sofrimento pelos laços de afeto rompidos e distanciamentos irreparáveis.
• Dor por um diagnóstico médico transmitido de forma fria e brutal, tirando o chão seguro e a esperança de continuidade, fazendo brotar em nós o choque da finitude.
• Dor de lidar consigo mesmo ou com um ente querido em situações de risco de vida por vícios (jogos, álcool, medicamentos, drogas, dentre outros), colocando-nos diante da impotência e da dor dilacerante de compreender que não podemos escolher pelo outro que se encontra perdido.
• Dor por uma doença prolongada, limitante ou incapacitante.
• Dor do luto…que nunca termina e que a depender, é reintegrada na vida de cada um: o luto se modifica na medida em que ele NOS MODIFICA.
Convido você a refletir e escrever sobre a sua dor.
O amor não morre porque o ente querido partiu.
Convém lembrar que existem dores reversíveis ou superáveis (perdas financeiras, traições, cura ou alívio de uma doença).
Entretanto, e é preciso ser forte para reconhecer essa verdade: EXISTEM dores irremediáveis, que não admitem retorno e não se curvam diante das lutas, porque não há luta para ser lutada, só existe o luto a ser vivido.
Aqui o mundo confortável acaba e a fase da Acomodação e da Rendição se impõe. O luto pela dor irreversível, a dor da morte, requer que todas as nossas defesas entrem em prontidão: alma, coração, afetos, amor, amparos, vontade interior e força incansável de reação. Tais defesas, se não as temos em nós, havemos de buscá-las, forjá-las, fortalecê-las, não para vencer a dor, mas para que a dor do luto não nos derrote.
É preciso compreender que não há como superar o luto. É preciso viver sem tentar superar! É preciso viver no processo de caminhar com ele.
A Dra. Elizabeth Kübler-Ross cita cinco estágios do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Mas quem vive o luto sabe que ele não se dá em estágios. São muitos sentimentos juntos e entrelaçados. Mudanças que vão acontecendo em nós que precisam ser compreendidas, vivenciadas e acolhidas.
Há quem conteste o termo “aceitação”, em se tratando de luto por morte, considerando-o mais apropriado para os demais tipos de perdas. Há outros termos encontrados na literatura como acomodação, assimilação, integração, rendição que sugerem vida que segue, modificada para “abrigar” o luto pela morte da pessoa amada.
Optei pelos termos Acomodação e/ou Rendição. Acomodação seria a angústia da perda começando a ceder espaço para a realidade da morte. A acomodação é libertadora, na medida em que nos obriga a “acordar” para a necessária reação e o consequente enfrentamento do nosso continuar a viver.
E claro que há os que não aceitam e se rendem à desistência mórbida, solitária e sem horizontes. Mas se despertada a força interior, é preciso procurar ajuda: amor, família, amigos, trabalho, exercícios mentais e atividades menores, bons livros, grupos de apoio, prestação de serviços, ajuda profissional especializada…
Por fim, mas não no fim, para os abençoados, os “sortudos”, e para os abertos em espírito, surge uma força incontestável: a FÉ! Não falo de religião, falo de crença, seja no cristianismo, no budismo, no universo, nas nuvens, no sol, nas estrelas, na pedrinha recolhida no caminho, no amuleto da sorte… A Fé em Algo para se acreditar, para se apegar, para suplicar… A Fé não tem explicação e nem lógica! Ela É!
A fé, como a dor, é única, pessoal, íntima… E aqui, quiçá, a fé possa ser infinita. A fé pode até não remover montanhas, mas PODE nos elevar ao topo da “nossa” montanha, e em lá chegando, podemos ver o mundo do alto, imenso, enigmático… com suas miríades de dores e seus finitos e infinitos amores, ódios, diferenças e ambições. E no alto da nossa montanha, os sentimentos parecem se unir: esta abstrata e literária simbiose pode nos levar à ideia paradoxal de que no fundo, a dor é universal mesmo sendo única.
A fé tem o condão de compensar a pouca ajuda recebida, que nem sempre chega na medida ou na constância das necessidades. Quando a ajuda não chega, ou chega em gotas, espaçadas ou sem compromissos, vemo-nos diante de um novo tipo de dor: a dor da solidão (ou a solidão da dor) e a terrível “dor com medo”.
A luta, a partir daqui, não é mais sobre a dor da perda em si, mas sobre as fragilidades que se impõem e da urgente necessidade de reunir forças para enfrentá-las. Quando o luto chega, não se pode simplesmente virar-lhe as costas e dizer: não é comigo, não consigo, não quero saber. Isto é para quem desiste.
Aqui não desistimos…
E assim, voltamos para a luta, a força, a coragem, a determinação, e como já mencionado, para “alguns muitos” ou para “alguns poucos sortudos”, nos amparamos na Fé.
Concluindo o texto, mas não o assunto, reafirmo as figuras esteio, quase mágicas, para viver a dor do luto, sem medo, de forma amenizada e menos pesada: Família, Amor, Amigos e Fé.
A família cuida, o Amor acalma, os Amigos alegram e a Fé sustenta.
E a dor? Mesmo que ela não vá embora, o que ficar será apenas a dor que dói e não a dor que corrói!
E a gente segue, mas agora com a dor que ficou ao nosso lado, não contra nós. Quero acreditar que a alma dos nossos queridos que partiram fica confortada e aliviada.
E a nossa alma? Agradece e voa mais leve.