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A Casa Submersa

Coluna

Tecendo histórias sobre o Luto

Por Marina C Smith

A Casa Submersa

Ao final de todas as férias, ela sabia que podia retornar. Deixava um pedacinho de si mesma, guardado no fundo do armário do quarto em que costumava dormir. Não precisava ser um pedaço muito grande, apenas um traço, com a promessa de que se reencontrariam. Assim suportava deixar a casa dos avós, só porque sabia que iria voltar.

Não era uma casa comum, suas paredes eram feitas de lembranças que se acumulavam a cada verão, o cheiro, um leve bolor de maresia, era um perfume que aconchegava seus sentidos. Ficava numa ilha, rodeada por águas calmas e coloridas por diversos afetos pintados ao longo dos anos. Uma balsa fazia a travessia, ligando dois tempos, o da vida cronológica, ano após ano, e o tempo do que permanece, vagaroso e circular, como numa espiral, cada camada da vida – a infância, adolescência e maturidade – convivendo lado a lado.

Nesse outro tempo conviviam o medo dos navios petroleiros que apitavam nos ouvidos sensíveis dos seus primeiros anos, com o medo do amor pré-adolescente não ser correspondido. Conviviam ainda, os espinhos dos ouriços-do-mar que teimavam em espetar pequenos pés desatentos, com os espinhos doloridos das perdas de pessoas queridas que a maturidade trouxe. Nesse tempo, ainda, se enlaçavam os amores primitivos – e eternos – pelo pai herói com quem desfrutava os finais de tarde ao pôr-do-sol, com os amores juvenis à beira-mar.

O tempo da memória permitia que seus avós continuassem vivos naquela casa, no abajur da mesa de cabeceira- que teimava em ficar aceso durante as leituras noturnas e insones de sua avó, na mesa redonda onde seu avô pintava seus quadros, nas grandes travessas de porcelana que ficavam repletas das receitas de família. Havia o sino de metal que tocava na hora do almoço, chamando as crianças que se desgarravam numa infância que transbordava os limites das cercas. O sino ficou em silêncio, o hábito mudara com os anos, mas permanecia no mesmo lugar, reassegurando que aquelas experiências foram reais. Enquanto aquela casa existisse, suas lembranças pareciam estar garantidas por um lastro na materialidade.

Porém, e parece que a vida insiste nos “poréns”, a casa precisou ser vendida. Era a racionalidade impondo a frieza de uma decisão necessária, sem, contudo, amenizar o dor de imaginar seu dispensário de memórias sendo habitado por outros objetos desconhecidos. E que talvez, nem suas paredes permanecessem em pé.

As primeiras sensações foram físicas, um tsunami interior que doía bem na altura do peito. Ela sentia que a ventania bagunçava as suas lembranças, arremessava suas relíquias no chão e por pouco não as destruía. Não haveria mais para onde retornar e reencontrar seus pedaços que deixara nos cantos da casa? O cheiro familiar que acompanhou seu crescimento, poderia ser encontrado em outro lugar?

E durante um tempo, aquele vendaval soprava balançando as estruturas daquela casa que também se espelhava dentro dela. Foi soprando, soprando, até que a velocidade do vento foi diminuindo, diminuindo. Aos poucos, ela pode, então, recolher alguns dos objetos que haviam sido lançados ao chão e os recolocar em seus lugares, não mais na materialidade palpável, mas na realidade imaterial da lembrança. De vez em quando, uma brisa mais forte insistia em mostrar que a perda não desapareceria, e tombava um vaso no chão, seus olhos marejavam, e recolhia os cacos e a terra espalhada, mas as paredes da casa interna permaneciam.

Um dia seu irmão dissera que um amigo ambientalista havia declarado que em 50 anos aquela casa, naquela ilha, estaria submersa devido ao avanço das mudanças climáticas. E a ela se lembrara da música do Chico, imaginando que se tornara a escafandrista de suas próprias memórias.

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No are
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

(…)

(Futuros Amantes, Chico Buarque)

2 Comments

  • Altivir J Volpe disse:

    Lindo, Marina! Bem winnicottiano. Um olhar atento, quantas referências e imagens transicionais.

  • Roberto Smith disse:

    E TRISTE E BOM LER TEU TEXTO QUE EMPATA EM NOSSOS SENTIMENTOS, TAL COMO DOR COMPARTILHADA, DE UM NUNCA MAIS, DAS INFANCIAS ACALENTADAS POR SONHOS, DE AVENTURAS DE FILHOS, VÍVIDAS, AGORA LEMBRANÇAS. DR. TINOCO, O AMIGO DO VELHO SMITH, INSTANDO PARA COMPRAR A NESGA DE TERRA, COMO UMA EXTENSAO DE SEU BANANAL DE UM MILHAO DE PÉS! AS MADEIRAS VINDA DA FAZENDA DO SUL DA BAHIA, COLHIDAS QUANDO ERAM ARVORES MASSARANDUBAS, E DEPOIS TRONCOS ERGUIDOS COM GUINDASTE DE TAO PESADOS PESADOS. O ARQUITETO METIDO A GENTE FINA, QUE DESENHOU UMA CASA COM JEITO DE FAMILIA QUATROCENTONA PARA NOS, REFUGIADOS DE ODESSA E DAS BEIRADAS DO RIO DNIESTER. DA COSINHA ESQUECIDA DAS LASTIMAS DA PAULINA ONDE CRESCEMOS, ENVELHEMOS UMA PARTE DE NOSSOS TEMPOS DE FERIAS, E NAVEGAMOS JUNTOS COM NOSSOS BARQUINHOS A CADA ANO QUE MARCAVA NOSSAS VIDAS. FICA, POIS, O CONVITE PARA UMA DESPEDIDA NOSSA, OS SOBREVIVENTES E OS NOSSOS CO-VIVENTES, TODOS NUMA CERIMONIA DE RECONHECIMENTO DO ABRIGO DE MUITAS CASAS, NOSSA PROTEÇÃO ESPIRITUAL.
    BRAVO MARINA, COM TODA EMOÇÃO.

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